Página 36 - A Resid

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Kelson de Oliveira Silva
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repetiam constantemente que “querer penetrar os mistérios do
oceano é desrespeitar à Deus”. Entre os europeus, a ideia propa-
lada pela Igreja Católica dos perigos e da “diabólica” força dos
oceanos inibiu e retardou a descoberta do litoral como lugar de
lazer e habitação.
Segundo Silva (2006), a imagem negativa em relação ao
mar não se dava de maneira homogênea em todas as partes da
Europa e do mundo. Conforme a autora, algumas sociedades
há muito já utilizavam o mar para navegação, transporte e
comércio. Acrescenta-se que não se pode dizer que o medo e
repulsa pelo mar ocorriam em todas as partes do mundo:
Cidades como Gênova eVeneza, ainda na Idade Média (476-
1453), se destacavam no comércio por terra e pelo mar Me-
diterrâneo, comprando dos árabes, em Constantinopla e Ale-
xandria, produtos do Oriente distante (Japão e China) (SILVA,
2006, p. 39).
Os gregos, por exemplo, consideravam o mar como es-
paço de convivência, subsistência e meio de locomoção (DAN-
TAS, 2004). O litoral exercia forte influência na cultura desse
povo; no entanto, de modo geral, os gregos eram considerados
rara exceção entre os povos antigos, porque, ao contrário de
outros europeus, eles não temiam o mar, tendo as praias como
importante lugar de socialização e outras atividades.
Com o início do século XVII operam-se mudanças que
possibilitaram um “novo olhar” do mar, implicando novas for-
mas de uso do litoral (CORBIN, 1989). Entre 1660 e 1675,
graças aos avanços da oceanografia realizados pela Inglaterra,
a concepção negativa do mar começa a mudar, o que, segundo
Corbin (1989, p. 30),“no mesmo período, opera-se a retirada de
Satã da história mental do Ocidente”.
Os poetas barrocos franceses do século XVII começam,
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